Estamos em época de eleições e, com elas, reacendem-se as discussões políticas. Diante disso, é certo que o cristão deve se importar com o governo, com a justiça e com o bem do próximo; a verdadeira dificuldade, no entanto, está em discernir qual lugar a política deve ocupar em nossa vida, evitando que uma responsabilidade legítima se transforme em algo que domine nossa consciência. Para compreender esse equilíbrio, a trajetória de John Knox pode nos oferecer valiosas lições.
John Knox (1514–1572) foi um dos principais reformadores da Escócia e uma figura fundamental na tradição presbiteriana — da qual a Igreja Presbiteriana do Brasil (IPB) faz parte. Contudo, Knox viveu em circunstâncias bastante distintas das nossas: na Escócia do século XVI, religião e política caminhavam profundamente entrelaçadas em meio a intensos conflitos. Nesse cenário, Knox pregou, escreveu, enfrentou autoridades e participou ativamente do debate público.
Essa atuação engajada transparece claramente em seus escritos de 1558. Em “Apelação à Nobreza e aos Estados”, ele sustenta que os governantes recebem autoridade com o propósito de buscar o bem do povo. Já na “Carta ao Povo Comum da Escócia”, coloca a glória de Deus, o avanço do evangelho e a salvação das almas acima de qualquer interesse terreno. Além disso, em outro texto do mesmo período, afirma que nenhum juramento ou promessa obriga um povo a apoiar governantes que agem contra Deus e contra a verdade conhecida. Para Knox, embora a fé tivesse consequências públicas incontestáveis, a política permanecia estritamente submetida à autoridade divina.
Essa distinção revela-se fundamental para nós hoje. É legítimo que tenhamos convicções políticas firmes e busquemos, por meios legais, o que entendemos ser o melhor para o país. No entanto, uma preferência política jamais deve se transformar em um compromisso de consciência sem amparo na Palavra de Deus. Afinal, mesmo ao defender o que consideramos justo, permanecemos vinculados à verdade, à justiça e ao amor ao próximo — de modo que uma causa que julgamos correta não nos concede licença para mentir, caluniar ou pecar.
Knox combateu ferozmente autoridades quando entendia que a fidelidade a Deus estava em jogo, mas sua motivação final não era a vitória de um grupo político, e sim a honra do Senhor e a fidelidade ao evangelho. Assim, podemos e devemos trabalhar pelo bem de nossa nação, mas sem fazer da política o centro de nossas atenções nem depositar nossa esperança em candidatos. Participemos da vida pública com seriedade, mantendo nossas convicções, nossa consciência e Nossas atitudes sempre debaixo da autoridade de Deus.
Rev. Günther Nagel